À parte
Entras num plano à parte, desconheces, e tudo o que vês a volta é-te estranho, lento, vais, não sabes onde estás, se um país estranho, se perdido, serão os outros? Serei eu só que não reconheço. São instantes, é tudo um filme, acho que sou realizador de um movie qualquer que desconheço, sou a personagem principal e sou eu que filmo, sou o gajo das legendas, sou tudo num só, quiçá um deus qualquer. São túneis escuros e roxos, são bolas de neve verde, são palhaços e revoluções industriais, é tudo na tua mente. Corres, cada gesto teu é uma parte de um filme, do qual já entrei e só saio amanhã, se sair. Tens a boca seca e depois fazes os planos de vidas, os que morreram não voltam, ou voltam noutros pontos que não conheces, há tecidos, há sangue, há livros abertos, eu sou deus, num misto incrível de falas e respostas secas, sou demasiado teatral. Vamos no carro, e tudo o que me falas, respondo com a minha voz pausada, e cada vez mais grave, dói-me os olhos, estou nervoso, tenho frio, não sei o que quero, mas isto é surreal, desde então sou surreal, flutuo, sinto-me tão longe, e a fazer uma força musculada, contraída para chegar à realidade, não distingues mais, não sabes mais o que és tu, ou ele, ou ela, onde vão e se vão. Não sabes mais, onde ficas, para onde vais, perdes os sentidos para ganhares outros novos, mais curiosos, menos bons, talvez, filme lisboeta assustador, estou tão nervoso. Meto música, assim acalma-me, mas tenho o coração aos pulos, dói-me a orelha da música, é tudo tão lento, tão rápido, dou por mim a correr dentro do quarto, a fingir-me sóbrio, ouço tudo gradualmente, falo demasiado, é demasiado rápido e lento ao mesmo tempo, o som é gradual e sentes o próprio eco dentro de ti, a afastar-se e depois há um qualquer momento de criação absurdo, tão rápido que não volta mais, apetecia-me escrever, deixar-me ir apenas, mas já fui, não volto mais, há cores no escuro, não durmo, sonho apenas, olhos fechado, let it flow… let it slowly flow… voltas ao passado como num comboio, não quero, não, a música está tão alta e ele fala tanto, é tudo tão dramático, tão teatral, tão filmico, típico de filme. Amanhã será tudo diferente, mas estás lento, cansado, não dormiste, sonhaste, e foi tudo culpa da espanhola, puta de merda, não me falou, só soube que eu era puto e aproveitou-se, o teu passado torna-se um filme mais real, tudo o que fazes volta-te à memória, o que fizeste, que sentença justa, se é que houve justiça, neste estado pseudo-decadente, é demasiado rápido, vomito? Fodasse, não posso, não tenho força, quero é chegar a casa e dormir, tentar dormir, mas dentro de mim há mosquitos, há zumbidos estranhos, afasto-os com a mão, mas eu sou consciente, distingo bem a realidade do sonho, o consciente do meu inconsciente, eu aqui, tu ali, desconheço, as imagens são tão lentas, o mundo é tão lento. A boca é sólida, dura, não respiro, se parar não é por isso que morro, a boca está seca, demasiado seca para respirar, viver, aqui. Por isso culpo-te pela tua generosidade fútil, e culpo-me ingenuidade forçada, tu não és parvo. A espanhola é que foi uma puta. Puta da espanhola.











